Quando a depressão não melhora como se esperava com os primeiros tratamentos, é natural que surjam perguntas sobre outras possibilidades. Duas delas aparecem com frequência nas conversas em consultório: a estimulação magnética transcraniana (EMT) e a escetamina. Ambas fazem parte do que chamamos de psiquiatria intervencionista, um conjunto de tratamentos que ampliam as opções de cuidado quando o caminho tradicional não foi suficiente. Na ComportaMente, em Brasília, recebemos muitas pessoas que chegam com a mesma dúvida: qual é a diferença entre elas e qual seria mais adequada no meu caso? Este texto busca esclarecer essas diferenças de forma simples, lembrando desde já que nenhuma das duas é a mais indicada para todo mundo.
Um ponto de partida comum
Antes de comparar, vale entender o que as duas têm em comum. Tanto a EMT quanto a escetamina costumam ser consideradas em quadros de depressão que persistem apesar de tratamentos anteriores bem conduzidos, situação que muitas vezes é chamada de depressão resistente. Não são, em geral, a primeira escolha para quem acabou de receber um diagnóstico, e sim alternativas pensadas para quando o cuidado inicial precisa de reforço.
Também é importante lembrar que nenhuma delas substitui o acompanhamento contínuo. Psicoterapia, ajustes de medicação, cuidados com o sono e com a rotina continuam fazendo parte do plano. O tratamento intervencionista entra como mais uma peça, não como solução isolada.
Como funciona a EMT
A estimulação magnética transcraniana utiliza pulsos magnéticos aplicados por uma bobina posicionada sobre a cabeça, de forma não invasiva. Esses pulsos estimulam regiões específicas do cérebro envolvidas na regulação do humor. Não há anestesia, não há corte e não há necessidade de internação.
Durante a sessão, a pessoa permanece sentada, acordada e confortável. É comum sentir batidinhas no couro cabeludo e ouvir cliques do aparelho. Algumas pessoas relatam desconforto local ou dor de cabeça leve nas primeiras sessões, que tende a diminuir com o tempo. Ao final, é possível voltar às atividades do dia, inclusive dirigir.
O ritmo da EMT costuma ser de sessões frequentes, muitas vezes em dias úteis consecutivos, ao longo de algumas semanas. A resposta tende a aparecer de forma mais gradual, acompanhando a sequência do protocolo. O número de sessões e a frequência são definidos pelo médico, de acordo com o protocolo escolhido e a evolução de cada pessoa.
Como funciona a escetamina
A escetamina é um medicamento que atua em um sistema de neurotransmissão diferente daquele em que agem os antidepressivos mais tradicionais. Ela pode ser administrada por spray nasal ou por via endovenosa, dependendo da indicação e da avaliação médica. As diferenças entre essas duas vias estão explicadas em outro texto, sobre escetamina nasal ou endovenosa.
A aplicação acontece sempre em ambiente de saúde, com equipe preparada. Durante e após a sessão, a pessoa fica em observação por um período, porque a escetamina pode causar efeitos passageiros, como sensação de distanciamento, tontura, sonolência, náusea ou alteração da pressão arterial. Esses efeitos costumam ser transitórios, mas exigem acompanhamento. Por isso, no dia da aplicação, a pessoa não deve dirigir e precisa de alguém para acompanhá-la na volta para casa.
O ritmo costuma começar com aplicações mais próximas, por exemplo algumas vezes por semana, e depois se espaçar conforme a evolução. Em geral, a escetamina tende a mostrar sinais de resposta em um prazo mais curto do que a EMT, o que pode ser relevante em determinados contextos clínicos. Ainda assim, essa é uma tendência, e cada pessoa responde de um jeito.
Comparando na prática
Para facilitar a visualização, resumimos alguns pontos que costumam ser considerados na conversa entre médico e paciente:
- Natureza do tratamento: a EMT é um procedimento de estimulação cerebral, sem medicamento. A escetamina é um medicamento aplicado sob supervisão.
- Como é a sessão: na EMT, a pessoa fica acordada, sem efeitos sobre a consciência, e sai liberada. Na escetamina, há um período de observação após a aplicação.
- Ritmo: a EMT costuma envolver sessões frequentes por algumas semanas. A escetamina começa com aplicações mais próximas e depois tende a se espaçar.
- Tempo de resposta: em geral mais gradual na EMT e, com frequência, mais rápido na escetamina.
- Logística do dia: após a EMT é possível dirigir e retomar a rotina. Após a escetamina, recomenda-se não dirigir e ter um acompanhante.
Esses pontos ajudam a organizar a conversa, mas não definem sozinhos a escolha. Cada item tem peso diferente dependendo da história e das necessidades de cada pessoa.
Cuidados e quem pode fazer
Nenhum dos dois tratamentos é indicado para todos. Na EMT, por exemplo, a presença de implantes metálicos na cabeça, alguns dispositivos eletrônicos e certas condições neurológicas precisam ser avaliadas com atenção. Na escetamina, fatores como pressão arterial, condições cardiovasculares, histórico de uso de substâncias e alguns quadros psiquiátricos específicos entram na análise.
Por isso, antes de qualquer indicação, fazemos uma avaliação detalhada, que inclui a história da depressão, os tratamentos já realizados, as medicações em uso, outras condições de saúde e o contexto de vida. Se você quer saber como essa etapa acontece, explicamos o processo em como funciona a avaliação para depressão resistente.
A escolha é individual
É comum a pergunta “qual é melhor?”. A resposta honesta é que não existe uma opção superior para todos. Há pessoas para quem a EMT faz mais sentido, seja pela preferência por um tratamento sem medicamento, seja pela facilidade de manter a rotina. Há outras para quem a escetamina pode ser mais adequada, considerando o quadro clínico e a necessidade de uma resposta em menor prazo. E há situações em que nenhuma das duas é a indicação no momento.
A decisão é construída em conjunto, com informação clara sobre benefícios esperados, possíveis efeitos, rotina do tratamento e alternativas. O acompanhamento com a psiquiatria adulta continua durante todo o processo, com reavaliações periódicas para ajustar o plano sempre que necessário.
Um convite para conversar
Se você convive com uma depressão que não melhora como gostaria e tem dúvidas sobre EMT, escetamina ou outras possibilidades, não precisa decidir sozinho. Nós, na ComportaMente, oferecemos uma avaliação cuidadosa, com tempo para escutar sua história e explicar cada opção com clareza. A partir dela, construímos um plano individual, integrado entre as especialidades da clínica. Se fizer sentido para você, agende uma avaliação e converse com nossa equipe sobre o seu caminho de cuidado.
